segunda-feira, 26 de setembro de 2016

“As mulheres muçulmanas são um alvo fácil dos governos”

As mulheres muçulmanas foram as mais recentes vítimas da perseguição dos Estados ocidentais à liberdade das minorias religiosas. A proibição do uso de burquíni nas praias francesas é uma das faces mais visíveis do problema. Mas não é a única.

Ashleigh Keall é doutoranda na Faculty of Laws da University College de Londres. Esteve em Lisboa por ocasião do ciclo de conferências “Law in the age of balancing”, da Faculdade de Direito da Universidade Católica, para apresentar a sua tese sobre véu islâmico e o direito constitucional à liberdade religiosa.

A proibição de uso do véu islâmico ou do burquíni poderá ter consequências negativas na integração social das mulheres muçulmanas?

Se uma mulher sente que deve usar um niqab para sair à rua e lhe é dito que não o poderá fazer, o mais provável é que decida ficar em casa, em vez de sair sem as vestes islâmicas. Mulheres entrevistadas em França disseram: ‘Pedi ao meu marido que levasse os nossos filhos à praia. Já não sou bem-vinda, não posso lá voltar’. Não é preciso muito para se perceber que medidas como esta vão condená-las a um maior isolamento social. Se encararmos o niqab como um símbolo de opressão, bani-lo será contrário ao projeto de criação de uma sociedade assente na igualdade de gêneros. Estas leis e políticas têm um impacto negativo. Tentemos integrar estas mulheres, interagir mais com elas, garantindo-lhes acesso à educação e ao mercado de trabalho.

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FONTE: Expresso em 26/09/2016

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Entidades repudiam apoio de pais de santo a Marcelo Crivella

Treze entidades que defendem e estudam religiões de matriz africana repudiaram o apoio de pais de santo à campanha de Marcelo Crivella (PRB) para prefeito do Rio. Em nota, instituições de vários estados, como Maranhão, Acre e Rio, lamentam “a postura do religioso, que resolveu postar-se ao lado do seu algoz”, e o acusam de “equívoco e má-fé”. A nota refere-se a um pai de santo que foi fotografado ao lado de Crivella durante passeata em Madureira, na Zona Norte do Rio, no início de setembro. O candidato é bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus.

— Quando um pai de santo se junta com fundamentalistas acendemos nosso sinal de alerta. As crenças do bispo e a forma como a Universal se porta vão na contramão das religiões de matriz africana — critica Marcos Rezende, coordenador nacional do Coletivo de Entidades Negras, que encabeça a lista de instituições que assinam a nota.

A nota também se baseia num vídeo retirado da internet por decisão da Justiça para acusar Crivella. No vídeo, compartilhado pelo perfil “Mídia Ninja”, no Facebook, o candidato afirma que “os negros gostam de cachaça, prostituição e macumba”. Entretanto, de acordo com a decisão do Tribunal Regional Eleitoral do Rio, o trecho foi retirado de contexto e editado para prejudicar Crivella. O perfil responsável pela publicação apagou o vídeo e admitiu o erro.

Para se livrar da pecha de candidato da Universal, igreja de Edir Macedo, tio de Crivella, o candidato passou, a partir do início deste mês, a se aproximar de babalorixás e umbandistas. Numa passeata por Madureira, caminhou lado a lado com um pai de santo, identificado como Douglas de Iansã. Já no dia 16, um vídeo postado no Facebook do candidato mostra um jovem, identificado como Vinícius Oliveira, que declara apoio a Crivella e diz: “Sou umbandista, mas a fé é uma coisa e a política é outra”. Procurada, a campanha de Crivella não se manifestou.

‘Não conheço esse sacerdote’

No próximo domingo, representantes de diversas religiões vão pedir que os candidatos a prefeito do Rio assinem um documento se comprometendo a garantir a liberdade religiosa na cidade. O encontro acontecerá num colégio em Copacabana, na Zona Sul, às 9h, logo antes da marcha pela liberdade religiosa na praia. Para o babalaô Ivanir dos Santos, da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, será a prova de fogo para Crivella.

— Falar é fácil, vamos ver se o candidato vai assinar a carta-compromisso no domingo — afirma.

O babalaô diz que nunca viu o pai de santo que declarou apoio a Crivella:

— Não conheço esse sacerdote. Só posso falar que é estranho ele não ser conhecido por ninguém no nosso meio. Também causa espanto ele estar sempre sozinho, sem os filhos de santo.

Vídeo postado no site de Crivella Foto: Reprodução



Com a palavra, os candidatos

Alessandro Molon (Rede)

Vamos valorizar e apoiar todas as manifestações religiosas e culturais, porque entendemos que a diversidade é uma riqueza, não um problema. Além disso, vamos apoiar iniciativas como a caminhada contra a intolerância religiosa e outras que promovam o diálogo interreligioso.

Indio da Costa (PSD)

Pela série de exemplos que vieram a público desde o episódio de um bispo da Igreja Universal chutando a imagem de Nossa Senhora Aparecida, a Igreja Universal pratica intolerância religiosa. Por mais que o bispo Crivella tente fugir deste fato, ele é real. O bispo Crivella pratica intolerância religiosa. Ele suporta a religião dos outros, porque está em campanha eleitoral. No meu governo, evidentemente, vou defender a tolerância religiosa. Entendo todas as pessoas como iguais.

Jandira Feghali (PCdoB)

Vamos implementar o programa Rio Sem Preconceito, com políticas de prevenção e combate à intolerância e à garantia de liberdade religiosa.

Flávio Bolsonaro (PSC)

No meu governo, a Guarda Municipal passará a ter o foco na proteção ao cidadão. Dentro desta nova orientação, não tenham dúvidas de que está também o combate a qualquer tipo de intolerância.

Carlos Osório (PSDB)

Vamos trabalhar para garantir direitos iguais, sem machismo, racismo, homofobia e intolerância religiosa. Iremos reforçar políticas públicas de combate à discriminação e promover campanhas educativas. Preparar profissionais da área de Saúde e Segurança para seguir um protocolo específico dos casos de violência e melhorar o sistema de registro e o acompanhamento dos casos.

Marcelo Freixo (PSOL)

Primeiro, vamos dialogar com todas as religiões e garantir que o Estado seja laico. Isso passa pelas escolas e pela relação com as comunidades. Quantos mais o poder público puder garantir o diálogo, e o encontro com as religiões, melhor será. Todas as religiões, sem exceção, serão respeitadas.

Pedro Paulo (PMDB)

Eu vou governar para todos, sem beneficiar uma religião em detrimento de outra. O Rio é uma cidade diversa e acolhedora, não pode aceitar a mistura de política e religião de certas candidaturas que defendem, de maneira fundamentalista e intolerante, apenas uma corrente religiosa. Vou dialogar com todas as religiões, tendo como propostas: manter a Coordenadoria Especial de Respeito à Diversidade Religiosa; criar casas para atendimento psicológico e jurídico às vitimas de qualquer tipo de preconceito, e criar o programa Cultura de Paz, que insere nas escolas municipais currículo de cultura da paz.

Leia abaixo a íntegra da nota:

“NÃO EM NOSSO NOME

Há dias vem circulando nas redes sociais um vídeo em que o Senador Marcelo Crivella, candidato à prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, diz com todas as letras que o negro só gosta de cachaça, prostituição e macumba, numa manifestação explícita de racismo e desrespeito religioso.

Vale lembrar que o dileto sobrinho de Edir Macedo, Bispo da Igreja Universal, é o representante político do fundamentalismo cristão de viés pentecostal que já há muitos anos vem expressando seu desejo de estabelecer no país uma teocracia calcada nos princípios fundamentalistas. Vale lembrar também que o líder máximo deste movimento, o senhor Edir Macedo, já publicou vários livros relacionando os Orixás a demônios, contribuindo assim para a disseminação de um conceito que fortalece toda a perseguição e Intolerância Religiosa a que vêm sendo submetidas as religiões de Matrizes Africanas em nosso país nas últimas décadas.

Nesse sentido causa-nos profundo estranhamento que pessoas ligadas às religiões de Matrizes Africanas estejam em sua campanha e façam uso do discurso do combate à Intolerância religiosa para justificar o injustificável, sua adesão àquele que, em última análise, representa e corrobora todo o pensamento contrário à nossa religiosidade.

Repudiamos fortemente esta postura que pressupõe, a nosso ver, grande equívoco e má fé, pois entendemos que o predador não se senta com a caça sem que ao fim não tenha a intenção de devorá-la. Portanto, se Crivella nada fez antes para combater as ações de imposição fundamentalista, não será como prefeito que ele irá confrontar o pensamento que o sustenta e que ele compartilha conforme o video acima citado.

É preciso frisar que nosso seguimento religioso não se estrutura a partir de um poder central, havendo total autonomia para que cada líder se manifeste de acordo com sua vontade. Nesse sentido, apenas lamentamos a postura do referido religioso que resolveu postar-se ao lado do seu algoz.

No entanto, como lideranças nacionais, como organizações que lutam contra o racismo e a Intolerância religiosa, temos o dever moral, ético, político e religioso de manifestar nosso repúdio ao apoio isolado desse Religioso de Matriz Africana à uma campanha que remonta a lógica da "Casa Grande", solicitando às lideranças religiosas de Matrizes Africanas do Rio de Janeiro que, como nós o fazemos aqui, desautorizem pessoas ligadas ao Projeto Político de Crivella, a falar em nosso nome.

Assinam:

COLETIVO DE ENTIDADES NEGRAS - CEN

RENAFRO - Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde

Fórum Estadual das Religiões de Matrizes Africanas do Maranhão - FERMA

CERNEGRO AC - Centro de Estudos e Referência da Cultura Afrobrassileira no Acre

FEREMAAC - Federação das Religiões de Matriz Africana do Acre

Ilê Axé Omi Layo, Rio de Janeiro

Ago-UFRJ - Coletivo de Estudantes Afro-religiosos da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Grupo de Estudos Bráulio Goffman - Rio de Janeiro

Rede Quilombação

Federação Nacional de Associações de pessoas Com Doença Falciforme -Fenafal

Ilê Axé Omiojuaro - Rio de Janeiro

Nufep UFF - Núcleo Fluminense de Estudos e Pesquisas da Universidade Federal Fluminense

PEAGERC - Programa de Estudos Avançados em Geografia, Religião e Cultura - UERJ”

FONTE: Jornal Extra em 21/09/2016

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Polícia investiga intolerância religiosa em incêndio de terreiro

A Polícia Civil de Araraquara está investigando a destruição do Templo Religioso Hermínio Marques, no distrito de Bueno de Andrada, e apura se o episódio configura crime de ódio e intolerância religiosa. Mais de 60 imagens foram quebradas no ataque, que ocorreu há uma semana, além disso, um incêndio destruiu o prédio, onde eram realizadas cerimônias da umbanda e do candomblé. Se confirmado, o caso será o primeiro de intolerância religiosa ocorrido na cidade.

“Atingiu a fé de uma população inteira. Os danos são irreparáveis, os filhos da fé nessa religião estão sentindo imensamente a dor”, disse a advogada Carla Missurino, que representa o espaço e vê indícios de intolerância religiosa no ataque.


Terreiro de umbanda é destruído

Um homem apontado como suspeito de cometer o crime foi ouvido pelas autoridades e negou o ato. Até o momento, ninguém foi preso.

ATAQUE

Segundo informações de fiéis, um homem começou a frequentar o espaço e se interessou por uma das moças que trabalham no local. Na noite de sábado (10), ele foi ao Centro para participar de uma cerimônia e teve de sair.

“Ele começou a gritar, estava descontrolado, exaltado, então os dirigentes do terreiro pediram para o rapaz se retirar e ele ameaçou a menina de morte dizendo que colocaria fogo nela e no Centro”, afirmou a advogada.

O terreiro foi fechado por volta de meia-noite, após o fim dos trabalhos, e menos de duas horas depois equipes do Corpo de Bombeiros já estavam no local tentando apagar o incêndio.
De acordo com Carla, uma testemunha viu quando o suspeito chegou, cortou o alambrado com um alicate, e, com um facão e uma pá, arrombou a porta do Centro, que tem mais de 60 anos de história.

AMEAÇAS

A delegada Meirelene Rodrigues, da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), afirmou que a jovem que trabalha no Centro procurou a polícia e contou que um novo frequentador teria se interessado por ela e feito ameaças.

"Ele queria ter um relacionamento com ela, que demonstrou que não queria nada com o homem. Ele ficou bravo, queria ser atendido apenas por ela e acabou ameçando e falando que iria atear fogo nela e no estabelecimento", disse Meirelene.

"Estamos investigando ameaça, injúria e crime de incêndio e, indiretamente, se existe intolerância religiosa", afirmou a delegada.

"Acho que a intolerância foi uma consequência, achamos que ele quis atingir a jovem, por conta dela não querer ter nada com ele", afirmou. Meirelene explicou que, caso exista o crime de intolerância, ele também será apurado e foi solicitada uma medida protetiva para a moça.

CRIME

No Brasil, intolerância religiosa é crime e prevê pena de até três anos de reclusão. No caso de Bueno, o autor poderá responder ainda por incêndio criminoso. Para fazer denúncias deste tipo de crime, o número é disque 100, e a identidade do denunciante é preservada.

FONTE: Portal G1 em 17/09/2016

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Terreiro de umbanda é destruído e polícia apura suposto crime de ódio

A Polícia Civil de (SP) investiga a destruição do Templo Religioso Hermínio Marques, no distrito de Bueno de Andrada, e apura se o episódio configura crime de ódio. Mais de 60 imagens foram quebradas no ataque no último fim de semana e um incêndio destruiu o que restava do prédio, onde eram realizadas cerimônias da umbanda e do candomblé. “Atingiu a fé de uma população inteira.

Os danos são irreparáveis, os filhos da fé nessa religião estão sentindo imensamente a dor”, disse a advogada Carla Missurino, que representa o espaço e vê indícios de intolerância religiosa no ataque. Um homem apontado como suspeito de cometer o crime foi ouvido pelas autoridades e negou o ato. Até o momento, ninguém foi preso. Ataque Segundo informações de fiéis, um homem começou a frequentar o espaço e se interessou por uma das moças que trabalham no local. 

Na noite de sábado (10), ele foi ao Centro para participar de uma cerimônia e teve de sair. “Ele começou a gritar, estava descontrolado, exaltado, então os dirigentes do terreiro pediram para o rapaz se retirar e ele ameaçou a menina de morte dizendo que colocaria fogo nela e no Centro”, afirmou a advogada. O terreiro foi fechado por volta de meia-noite, após o fim dos trabalhos, e menos de duas horas depois equipes do Corpo de Bombeiros já estavam no local tentando apagar o incêndio. De acordo com Carla, uma testemunha viu quando o suspeito chegou, cortou o alambrado com um alicate, e, com um facão e uma pá, arrombou a porta do Centro, que tem mais de 60 anos de história.

Tentativa de relacionamento 

A delegada Meirelene Rodrigues, da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), afirmou que a jovem que trabalha no Centro procurou a polícia e contou que um novo frequentador teria se interessado por ela e feito ameaças. "Ele queria ter um relacionamento com ela, que demonstrou que não queria nada com o homem. Ele ficou bravo, queria ser atendido apenas por ela e acabou ameaçando e falando que iria atear fogo nela e no estabelecimento", disse Meirelene. "Estamos investigando ameaça, injúria e crime de incêndio e, indiretamente, se existe intolerância religiosa", afirmou a delegada. "Acho que a intolerância foi uma consequência, achamos que ele quis atingir a jovem, por conta dela não querer ter nada com ele", afirmou. Meirelene explicou que, caso exista o crime de intolerância, ele também será apurado e foi solicitada uma medida protetiva para a moça.

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FONTE: Portal G1

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Bahia terá atendimento especializado para vítimas de racismo, intolerância religiosa e homofobia

A Bahia dá um importante passo para a qualificação dos atendimentos ao cidadão vítima de atos que envolvam distinção, exclusão e restrição baseada em raça, cor, etnia, identidade sexual e manifestação religiosa. Sob coordenação da Superintendência de Prevenção à Violência (Sprev) da Secretaria da Segurança Pública (SSP), um grupo de trabalho (GT) composto por representantes da Polícia Militar, Polícia Civil e do Departamento de Polícia Técnica (DPT) já se dedica à elaboração de um protocolo com procedimentos a serem adotados em relação ao acolhimento, registro das denúncias, investigação dos casos, encaminhamento à rede de proteção e apoio às vítimas de homofobia, racismo e intolerância religiosa.

O objetivo final do grupo de trabalho é criar condições para a instalação do Núcleo de Atendimento Qualificado às Vítimas de Preconceito Racial, Intolerância Religiosa e da População LGBT, que funcionará no âmbito da Polícia Civil, reforçando o suporte às vítimas desde o primeiro atendimento na delegacia até o acolhimento na rede de apoio constituída por diversos órgãos estaduais. A unidade vai acompanhar as investigações das denúncias caso a caso. O GT tem um prazo de 30 dias para avaliar o efetivo policial e o espaço físico compatível para a implantação da unidade.

A qualificação do atendimento às vítimas de homofobia, racismo e intolerância religiosa no estado contempla uma demanda da sociedade, expressa em uma série de diálogos entre a administração pública estadual e integrantes de movimentos sociais. Servidores de secretarias de Estado e especialistas nas temáticas também serão convidados pelo grupo de trabalho para colaborarem na elaboração do protocolo.

"Estamos criando o protocolo para qualificar o atendimento a essas minorias na perspectiva da cidadania e da dignidade humana, juntamente com os princípios da administração pública, que são a impessoalidade e a moralidade. Já temos um acúmulo de trabalho que servirá de base para a elaboração das estratégias. A gente sabe da necessidade de garantir o suporte às vítimas de racismo, intolerância religiosa e homofobia para que esse contexto de violência mude", explica o coordenador do grupo de trabalho, o tenente-coronel Jaime Ramalho Neto, antropólogo e mestre em estudos étnicos africanos.



O grupo de trabalho é coordenado pelo tenente-coronel Jaime Ramalho Neto (Foto: Camila Souza/GOVBA)

Perfis das vítimas

De acordo com o tenente-coronel, a aproximação da polícia com as vítimas possibilitará a identificação do perfil delas para a construção de políticas públicas que sejam mais efetivas na prevenção dos casos de violência. “Nós já temos muitas informações sobre os casos de violências; muitas delas passadas durante reuniões com movimentos sociais. Mesmo assim, o contato vai nos permitir estudos mais aprofundados para traçar estratégias de redução dos indicadores. Para isso, mais do que os dados quantitativos, são importantes os dados qualitativos”, acrescenta Ramalho Neto.

Para quem levanta a bandeira da resistência, como a transexual Keyla Simpson, presidente da Associação Nacional de Travestis e Transexuais, a qualificação dos atendimentos deve garantir um número real de registro de denúncias, o que deve proporcionar um direcionamento na construção de políticas públicas mais adequadas.

"A gente está no caminho. Precisamos que estejam contidos nos boletins de ocorrência a motivação do crime, a orientação sexual da vítima e da pessoa que cometeu o crime. Isso vai nos dar possibilidades de termos números exatos de violência praticada por essa população e contra essa população, seja injúria, discriminação ou violência verbal. Ter volume de denúncias vai ser importante para desenhar melhor as políticas públicas que precisamos para coibir essas ações", destaca Keyla.

Violência contra LGBTs

De acordo com a vice-presidente do Conselho Estadual de Defesa e Promoção dos Direitos da População LGBT, Amélia Maraux, de janeiro a junho deste ano, mais de 20 LGBTs foram assassinados na Bahia. No mesmo período, o Disque Direitos Humanos, gerido pelo governo federal, registrou 48 casos contendo inúmeras violações dos direitos humanos das pessoas LGBTs no estado.

“Nós lutamos pela criminalização da homofobia, mas para isso é preciso que as denúncias sejam registradas e encaminhadas junto ao Ministério Público para a investigação e a punição do agressores", ressalta Amélia, que também é coordenadora do Núcleo de Estudos de Gênero e Sexualidade da Universidade do Estado da Bahia (Uneb).

Segundo o coordenador LGBT do Coletivo de Entidades Negras (CEN), Gabriel Teixeira, a elaboração do protocolo é um primeiro passo para o fortalecimento da estrutura estatal que garantirá o respeito e a dignidade do público gay. “Só quem é homossexual tem dimensão do preconceito que ainda existe. Tem gente que se sente no direito de agredir o outro só de saber que o outro é gay. Isso é um absurdo que precisa acabar. Nós estamos começando a caminhar juntos para sermos respeitados”, afirma Teixeira.

Racismo e intolerância

Em número de casos registrados, o racismo e a intolerância religiosa não ficam atrás da homofobia. Segundo dados do Centro de Referência Nelson Mandela, desde dezembro de 2013, quando a unidade foi criada, 74 casos de intolerância religiosa e 177 de racismo foram denunciados.

“É um absurdo conceber racismo em um estado de 15 milhões de habitantes que tem 75% de pessoas negras. Isso precisa ser combatido cada vez mais. Vejo a construção do protocolo e a instalação do núcleo como passos importantes para futuramente termos uma delegacia especializada, que é demanda da população”, enfatiza o coordenador executivo da Secretaria Promoção da Igualdade Racial (Sepromi), Antônio Cosme Lima.

FONTE: Governo do estado Bahia em 13/09/2016

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Preconceito leva 70% dos terreiros a viverem na clandestinidade

Por Yuri Ramires

Cerca de 70% dos centros onde são realizados os cultos religiosos afro-brasileiros na Baixada Cuiabana funcionam na clandestinidade. A afirmação é de Aécio Montezuma, presidente da Federação Nacional de Umbanda e dos Cultos Afro Brasileiros (Fenucab).

O motivo, segundo ele, é a intolerância religiosa. “Hoje, na Baixada Cuiabana, centenas de terreiros estão na clandestinidade devido ao preconceito que cerca a umbanda e o candomblé, bem como seus praticantes”, disse.

Em razão desse preconceito, Aécio relatou que grande parte dos terreiros estão localizados em áreas mais afastadas do centro, em regiões rurais ou periféricas. “A falta de conhecimento gera a intolerância, e muitos preferem se manter mais discretos”.

Conforme Aécio, desde o começo da umbanda, por exemplo, pais ensinaram os filhos que precisam ser discretos na hora do culto. “Seja para rezar, para tocar o tambor, ou qualquer outro tipo de manifestação da religião que possa trazer uma reação negativa da população”.

Apesar de exigir uma legislação que assegure a manifestação religiosa da umbanda e do candomblé, há aqueles praticantes que sentem na pele o preconceito.

Pai Abraão que, há dois anos está com um terreiro no Bairro Ponte Nova, em Várzea Grande, foi um deles. Ele lembrou de um episódio que aconteceu no Terreiro de Mãe Preta, no distrito do Sucuri.

“Nos reunimos no terreiro para um culto, a pedidos de Mãe Preta, que passava por dificuldades. No meio da celebração, começamos a ser apedrejados por um vizinho”, contou.

Segundo Abraão, o homem, evangélico, proferiu diversos xingamentos de cunho racista e de senso comum contra a religião.

“Foi muito triste, o terreiro estava lotado, as pedras atingiram as pessoas que estavam ali. A polícia foi acionada, mas só para apaziguar a situação, pois nada mais aconteceu”.

Ele afirma que casos de intolerância contra as religiões de matriz africana são registrados todos os dias.
Violência física

Quem também contou ter sido vítima de intolerância religiosa foi Pai Tata, praticante da umbanda há 15 anos. Ele disse que tentaram assassiná-lo no Bairro Asa Bela, em Várzea Grande.

Há cerca de um mês, ele estava em sua casa, onde funciona o terreiro, quando um homem não identificado efetuou disparos na porta do local.

Os tiros atingiram apenas a fachada da residência. Para Tata, não há dúvidas de que a ação foi motivada pela intolerância religiosa, uma vez que ele disse não ter "problemas de outras naturezas”.

“Eles quiseram me dar um susto. Mas não tenho nenhum problema com meus vizinhos, todos sabem que aqui funciona um centro de umbanda. Foi a única ocorrência do tipo nesses anos”, ressaltou.

Falta de preparo

Segundo Aécio, ocorrências dessa natureza quase não são denunciadas. “As vítimas têm receio da autoridade policial, que não está preparada para atender uma ocorrência desse tipo, não só envolvendo casos de intolerância religiosa, mas também de homofobia, xenofobia e crimes contra minorias”.

Para ele, cada dia é um problema novo. Por presidir a federação, as ocorrências acabam sendo levadas a ele. “Dia desses, um terreiro foi invadido por policiais e a ministra foi presa e autuada por injúria”.

O incidente ocorreu, de acordo com Pai Aécio, porque a mulher teve seu terreiro apedrejado pelo vizinho e foi tirar satisfações.

“Após uma discussão acalorada, a polícia foi acionada e a prendeu dentro do terreiro, sendo que ela é a vítima dessa situação toda”.

Em Mato Grosso, a Polícia Civil é responsável por investigar os crimes motivados pela intolerância, mas, há cerca de um mês, o setor está sem um delegado – já que Luciano Inácio da Silva foi cedido ao Governo Federal – para cuidar dos casos.

“Nos reunimos com o secretário de Segurança Pública (Sesp), Rogers Jarbas, para cobrar um novo profissional para atender a demanda, que é urgente devido ao aumento de casos de intolerância”.

O MidiaNews entrou em contato com a assessoria de imprensa da Polícia Civil e foi informado de que ainda não foi definido um nome para cuidar destes tipos de crimes.

Por enquanto, os casos estão sob os cuidados da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).

Macumba é instrumento musical

Em meio a consolidação da religião e seu crescimento nos grandes centros, muita boataria se espalhou. Um desses boatos é de que os praticantes fazem “macumbas”, o que, no senso comum, se assemelha a uma espécie de "feitiçaria".

Todavia, Aécio explicou que, na verdade, "macumba" é apenas um instrumento musical.

“Quando tocado, soa em forma de tambores. Na origem da religião, quando os cultos começavam, as macumbas eram tocadas, começaram a usar de forma pejorativa, nos chamando de macumbeiros”, lembrou.

Algo que também reforçou o lado negativo da religião está no fato da palavra macumba ter o prefixo má – que lembra maldade. “Então, caracterizou-se uma forma negativa, que em nossos cultos, fazemos maldades”.

Porém, ele ressaltou que não há nenhuma prática de maldade dentro dos terreiros. “Muito pelo contrário, maldade tem muitas pessoas que nos procuraram”.

Aécio tem 57 anos e é policial civil aposentado. Há pelo menos 45 anos se dedica aos estudos e à filosofia da umbanda, religião que ele classifica como “uma junção do catolicismo, espiritismo e indianismo, e da cultura afro”.

“É uma religião que vive em processo evolutivo, que abraça todos os tipos de pessoas, sem nenhum tipo de preconceito, diferente do que vem acontecendo em outras religiões, por exemplo”, lembrou.

Braços abertos

Por não impor regras à sua prática, tanto a umbanda quanto o candomblé acabam sendo abraçados pelas minorias (como LGBTs e negros), fato que, segundo Aécio, acaba despertando ainda mais a “revolta” dos demais religiosos.

“Quando essas minorias se juntam, deixam de ser minorias. Os religiosos temem que a gente cresça e tome o poder, uma vez que são maioria e podem decidir os caminhos do país”.

Aécio faz referência às bancadas católica e evangélica, que, nos últimos anos, ganharam força na política nacional e são capazes de decidir “o que é e o que não é certo” com base em suas crenças.

Carta magna da umbanda

Um movimento nacional de umbandistas busca o reconhecimento da religião de forma legítima e segura, “criando uma unidade e agregando informações pertinentes ao benefício da umbanda”.

FONTE: Mídia News em 28/08/2016

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Centro religioso é incendiado e tem imagens destruídas em Nova Iguaçu

Espaço de Nova Iguaçu foi incendiado e imagens religiosas destruídasWhatsApp O DIA (98762-8248)

Rio - Um templo religioso dedicado à religião africana foi incendiado e teve imagens destruídas, na noite desta quarta-feira, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, na noite desta quarta-feira. O responsável pelo espaço disse se tratar de crime de intolerância religiosa, mas o caso foi registrado como dano violação de domicílio e dano.


Segundo Bruno Pereira, a 52 DP (Nova Iguaçu) se negou a registrar um caso de intolerância religiosa. “O delegado disse que não podia enquadrar na intolerância porque não tinha provas de que alguém pulou e ateou fogo”, lamenta o responsável pelo templo.

Para o abalawo e interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, Ivanir dos Santos, a atitude do delegado não foi correta. “Não é invasão de domicílio. Ali é um centro religioso. No mínimo deveria ser tipificado como profanação de imagem”, explica

Segundo Pereira, há sete anos, o centro já havia sido invadido. “Estou virando mais um na estatística, já fui uma vez e estou voltando a ser”, desabafa. “A festa que aconteceria aqui, no sábado, e estava toda divulgada, vai ter que ser adiada”, completa.

Fonte: Jornal O Dia em 18/08/2016