Padre é acusado por juiz de instigar intolerância religiosa

Em uma das paredes brancas está pendurado um grande cartaz ilustrado com a figura de Jesus. Nele, estão escritas três palavras: trabalho, solidariedade e tolerância. Elas sintetizam os ideais defendidos por quem frequenta o Centro Espírita Paz e Luz, em Riachão do Dantas, distante 99 quilômetros de Aracaju.
Ainda que seja um desejo explícito, tolerância é o que menos se tem visto na cidade. Isso porque o pároco Álvaro Braz está sendo acusado de proibir qualquer pessoa que frequente as dependências do Centro Espírita de participar da comunhão. O problema é que no mesmo Centro funciona o Instituto Manoel Costa Neto, onde são oferecidas aulas profissionalizantes gratuitas em diversas áreas, como culinária, inglês e informática. Ao todo, são nove cursos, que atraíram mais de 250 alunos em quase dez meses de funcionamento.

Com a atitude do padre, os alunos do instituto passaram a ser alvo de perseguição religiosa, e ainda que não participem das reuniões do Centro Espírita - e não haveria problema se participassem -, são proibidos de receber a comunhão durante a missa. Há relatos de um padrinho que foi constrangido ao participar de um batizado, porque estaria indo à "morada do demônio", referência ao Centro Espírita Paz e Luz.

"O padre está condicionando os trabalhos sociais do Instituto ao espiritismo. Acontece que nenhum dos beneficiados é obrigado a se tornar espírita", argumenta o juiz Manoel Costa Neto, fundador do Centro e idealizador do instituto que leva seu nome. "Chegou ao ponto de o padre mandar pessoas saírem da fila da comunhão", acusa Manoel.

Segundo Edivan Santos, coordenador do Instituto, durante a missa do domingo, dia 6, o padre Álvaro disse que quem estivesse indo ao Centro Espírita que nem fosse à fila da comunhão, para não passar vergonha. "Minha esposa mesmo, não pôde comungar. Isso porque ela faz a limpeza do instituto. Sou católico e nunca fui a uma reunião do Centro Espírita. Ninguém aqui é induzido a seguir quem quer que seja. A ligação aqui é profissional, e mesmo que tivesse alguma ligação religiosa, tem que respeitar a decisão do outro", pondera Edivan.

Bastante chateado com a situação, o juiz Manoel Costa Neto encaminhou uma carta à Diocese de Estância, encarregada da Paróquia de Riachão, para que essa situação seja analisada e na intenção de que haja respeito e tolerância por parte dos católicos. A expectativa é a de que os representantes da Igreja Católica tomem alguma atitude diante do fato.

INTERCESSORES


Na última quinta-feira, dia 9, o Cinform esteve em Riachão para saber a versão do padre sobre as denúncias de intolerância. Ao procurar o pároco, a informação era a de que ele não se encontrava na cidade, pois tinha viajado. A equipe de reportagem ainda tentou contato por telefone até o fechamento desta edição no sábado pela manhã, mas sem sucesso.

Apesar disso, a Diocese de Estância prestou esclarecimentos. "Não houve nenhuma expulsão da igreja. Tudo não passa de um mal entendido. O padre apenas orientou os fiéis sobre o posicionamento da Igreja ante o espiritismo. Isso não é incitação à intolerância. Foi apenas uma explicação da doutrina católica. Não passou disso", esclarece o padre Vagner Araújo, representante da Diocese.
A postura do religioso de Riachão, no entanto, é compartilhada pelos fiéis católicos. De acordo com a vendedora Mônica de Jesus, o que o padre falou durante a missa foi que as pessoas que fazem parte do Centro Espírita não deveriam participar da Eucaristia. "Em momento algum ele falou que ia proibir ninguém. Nem disse nada sobre os alunos e professores do instituto", defende. Mônica concorda que quem simpatizar com a doutrina espírita não deveria receber a hóstia. "Não se pode servir a dois senhores ao mesmo tempo", enfatiza a vendedora, usando uma passagem da Bíblia.

Mas este tema vaza para as pessoas assim meio tomado de preconceito. A aposentada Antônia Lima, é uma delas. "Não devemos misturar as coisas de Deus com as do diabo. O padre tem razão, porque o povo vai para o Centro Espírita invocar os mortos e depois vai para a igreja receber o corpo e o sangue de Cristo. Isso não pode", exclama.

Se depender da vontade de grande parte dos riachãoenses, padre Álvaro não sai da cidade tão cedo. Mesmo sem estar cogitado o afastamento do pároco, já tem gente mobilizada para defender o religioso. "Nunca a gente teve um padre atuante como esse. Se depender da comunidade daqui, ele não sai de jeito nenhum. Se precisar, a gente faz até caminhada para defendê-lo", antecipa a professora Gilmarize Araújo. Pelo visto, esse embate ideológico terá mais capítulos. O que não é simpático é que se alimente qualquer grau de intolerância religiosa.

FONTE: CINFORM em 20/11/2011

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